
Texto: Thaís Bittencourt

SindplanNews: O senhor é professor e educador e sempre foi ligado a essa área. Qual a importância da educação em seu mandato?
Comte Bittencourt: O parlamento nos exige transitar e debater todos os temas que envolvem o interesse público e do estado. Mas é natural que cada um concentre mais a sua ação em sua área de formação, de atividade profissional. Um engenheiro normalmente cuida mais da comissão de obras, o médico se dedica mais ao debate da saúde no estado, o economista se dedica mais à questão das finanças públicas. É natural que um professor se dedique mais à educação. É evidente que o meu mandato não seja monotemático. Mas, como eu disse, a atividade parlamentar exige o conhecimento de todas as políticas públicas para que você possa contribuir no debate. É natural que nos meus mais de 20 anos de mandato, eu busque dar maior contribuição ao debate da educação. Especialmente da educação pública.
SindplanNews: Como o senhor avalia a educação atualmente no estado?
Comte Bittencourt: No Brasil, de um
modo geral, vai muito mal. Existe uma falta
de compreensão de que educação tem que ser prioridade das políticas públicas. Educação
só será uma prioridade das políticas do estado
brasileiro quando a população se movimentar
e pressionar políticos e governos para
que o tema vire agenda principal. Nós estamos
em um país que é a sétima economia do mundo
e conta com aproximadamente 40 milhões
de jovens e adultos ou analfabetos ou alfabetizados
funcionais. Ou seja, escrevem alguma
coisa, mas sequer conseguem interpretar o
que escreveram. É uma população de semiescolarizados
maior do que toda a população
da Argentina. O país só conseguiu
universalizar a chamada escola de matrícula
obrigatória, já determinada pelo constituinte
de 1968 (o direito da criança à escola, o dever
da família e obrigação do Estado), no final
dos anos 1990.
No Brasil nós temos um potencial de apenas
13 a 15% de universitários. Os países vizinhos
todos já estão em 30, 35%. Na América do
Norte são 50% de universitários. Não estou
nem discutindo a qualidade da universidade,
estou discutindo a qualidade de educação
básica. Hoje nós temos no Brasil 8 milhões
de desempregados e temos um milhão e
setecentos mil postos de emprego vagos em
setores importantes da atividade industrial
porque não tem mão-de-obra qualificada. E
mão-de-obra qualificada está diretamente
ligada ao ciclo da educação básica. Ou seja,
essas competências do emprego não se
resolvem só por qualificação profissional de
duzentas ou trezentas horas. Ninguém vai
substituir um ciclo curricular de matemática,
de língua portuguesa, de linguagens múltiplas
com duzentas ou trezentas horas de cursos
profissionalizantes. Hoje, em qualquer
atividade profissional para a pessoa operar
qualquer tipo de emprego, as tecnologias estão
presentes. E para ela interagir com essas
tecnologias, tem que ter domínio de
competências e habilidades.
SindplanNews: E esses pré-requisitos só tendem a evoluir.?
Comte Bittencourt: Sem dúvida,
estamos na era do conhecimento com as novas
tecnologias. Se não tiver investimento
maciço em educação, nós vamos ter agenda
de desenvolvimento econômico, gerando emprego,
mas vamos continuar tendo desempregados.
Porque as pessoas não estão preparadas.
SindplanNews: O senhor acha que a população tem que se mobilizar ainda mais que o governo?
Comte Bittencourt: O que população
não entende é que o governo é delegado por
ela. E o que estabelece a prioridade da agenda
das políticas de governo é a pressão da população.
Mas hoje no estado do Rio de Janeiro
temos uma agenda promissora de desenvolvimento
econômico que vai gerar emprego para
as pessoas. O Porto do Açu, o Comperj em
Itaboraí, o Arco Metropolitano Rodoviário,
o setor automobilístico, a siderurgia, toda a
recuperação do Parque da Indústria Naval, a
questão do pré-sal, as Olimpíadas, a Copa do
Mundo. O Rio de Janeiro atravessa uma fase
promissora, que vai gerar emprego, que vai
desenvolver economicamente o estado. Mas
quem é que vai ocupar esse emprego? A educação
básica é pré-requisito fundamental para
essa era do conhecimento, com novas
tecnologias. As pessoas têm que dominar
competências e habilidades mínimas.
SindplanNews: O que difere o ensino público superior do médio e fundamental? Enquanto um é prestigiado, o outro não é bem visto.
Comte Bittencourt: Acredito que é
uma grande mobilização da população. Quanto
mais educação, mais cidadãs as pessoas
ficam. E quanto mais cidadão se sente o indivíduo,
mais apto ele está para estabelecer essa
relação com o estado. Hoje nós temos 97%
das crianças de 6 a 14 anos dentro de uma
escola, coisa que não tínhamos há dez anos. A
taxa de escolarização do brasileiro empregado
hoje é de seis anos de escolaridade. Seis
anos de escolaridade é menos que o ciclo fundamental
de nove anos, é a metade do ciclo
básico, sem contar a educação infantil. Se contar
a educação infantil é quase um terço só.
Então, um terço só da educação prevista no
ciclo básico, incluindo a educação infantil o
brasileiro empregado hoje cumpriu. Por isso
temos mão-de-obra de baixa qualidade e se
fala em apagão de mão-de-obra. Por causa
dessa carência, as grandes corporações hoje
da indústria requalificam, treinam e fazem
escola dentro das empresas. O estado não
cumpriu o seu papel.
SindplanNews: O senhor preside novamente a Comissão de Educação da Alerj. Pode falar um pouco sobre essa gestão?
Comte Bittencourt: Tenho buscado
nesses três mandatos na Comissão de Educação
criar uma dinâmica para que a Alerj cumpra
aquilo que se espera do legislativo nas
políticas de Educação Pública no Rio de Janeiro.
Nós fizemos aqui em 2004 a Lei do
Sistema 4528 (que estabelece as diretrizes para
a organização do sistema de ensino do Estado
do Rio) regulamentando o Sistema Estadual
de Educação. Em 2009 fizemos a lei do plano,
a primeira lei de responsabilidade educacional
do país. Hoje o estado do Rio tem uma
lei de responsabilidade educacional, que estabelece
aos governos cumprimento de indicadores
e a prestação de contas desses indicadores
a cada ano letivo. Nós fizemos uma lei
em 2008 sancionada pelo governo que estabelece
que os municípios que não tenham planos
municipais de educação não recebam mais
recursos de transferência voluntária do estado.
Nós finalmente fizemos no final de 2009
o primeiro plano estadual de educação nos
próximos 10 anos. Então, diria que cumprimos
uma boa agenda legislativa. Finalmente o
Rio de Janeiro tem as bases legislativas de
política de educação estabelecidas,
construídas. Agora, é exigir o cumprimento,
além de fiscalizar, brigar por investimentos e
por qualidade na educação. E qualidade na
educação está diretamente ligada a investimentos.
Não adianta falar que o problema
não é recurso, porque é recurso sim. Não pode
o professor do estado ganhar R$877 em início
de carreira. Por isso faltam professores de
Química, de Física. Qual o jovem com algum
talento vai fazer a opção para uma faculdade
de licenciatura para ganhar em torno 870 reais
por mês? Nenhum jovem de talento vai
fazer isso. Por isso a falta de professores.
Hoje a minha grande luta aqui na Assembleia
é manter essa sistemática. O grande movimento
aqui é manter o debate permanente da
educação nas suas diversas vertentes. Discutir
a educação profissional, a educação básica,
a articulação do estado com os municípios,
a carreira docente, a valorização. Como eu
lhe falava, é difícil avançarmos a qualidade de
educação, se não tivermos investimentos que
sejam capazes de remunerar melhor os profissionais
da área.
SindplanNews: E o senhor luta constantemente para isso?
Comte Bittencourt: Continuo lutando porque é uma verdade. Como é que um salário de R$877 vai despertar interesse em alguém com talento para a profissão de magistério? Temos hoje escolas com quarenta mil tempos sem professor. Professores de Química, Matemática e Física estão em falta. Existe a falta de compreensão de que a educação tem que ser prioridade. E nós estamos hoje lutando pela PEC 64, para captar investimentos do estado na educação. Como vários estados já fazem. Atualmente a constituição estadual estabelece 25%, como a constituição federal. O que nós queremos é nos próximos cinco anos levar esse percentual para 30%. Não é do orçamento todo, são 30% das receitas correntes líquidas. Isso vai ser algo em torno de 300 milhões por ano em educação. Chegando em 2016 com mais um bilhão e quinhentos milhões em educação. Isso vai permitir com que o Estado aplique esse dinheiro melhorando o salário dos professores, a qualidade docente e motivando. Não vai haver aprendizagem do aluno sem o profissional ensinando. E o profissional tem que estar motivado pra ensinar. E com esse salário ninguém fica motivado.
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